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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Primeiras Impressões // Leoni - Notícias de Mim (2015)


É preciso falar duas coisas sobre o mais recente disco do Leoni: a primeira é que ele foi todo feito em crowdfunding e a segunda é o quanto perdemos quando ele saiu do Kid Abelha.

A primeira é simples e demonstra pra onde caminha toda a indústria do entretenimento. Cada vez mais existem produções mais intimistas, personalíssimas, que dependem única e exclusivamente do desejo dos seus fãs. Evolução natural das mídias? Não, pura e simples necessidade, diminuição dos gastos das gravadoras e fim da era das vendas maciças de álbuns. Tiveram que se adaptar e esse foi o melhor caminho encontrado.

Já sobre a segunda há muito mais polêmica. Sempre que falo de Kid e Leoni um amigo diz que ele foi importante "mas nem tanto". Já eu afirmo que entre 80 e 90% das músicas de sucesso do Kid foram feitas por ele e que, mesmo com um álbum pós-Leoni muito bom e um acústico antológico, a banda foi se tornando um cover de si mesmo, presa a imensa superioridade do período em que o carioca ainda compunha a banda.

É fato que "Notícias de Mim" carrega tudo que Leoni trouxe do Kid, tudo que seus fãs esperam dele e tudo que ele poderia ter feito se ainda tivesse na banda. Há um certo prazer doloroso em ouvir o disco que, embora excelente, remeta a realidades que não se concretizaram.

Em músicas como a faixa-título, "Amor Real" (em parceria com Sérgio Britto) e "Pequeno Labirinto" (com Zélia Duncan), Leoni nos remete a um mundo ideal onde você ainda iria comprar o LP do Kid Abelha, em 2016, com ele e os outros na capa. O álbum é, por si, uma vitória dos fãs e do próprio Leoni. Como esquecer do seu brilhantismo ao escrever com versos como estes, em "Nos Olhos Dela"?

Da porta da cozinha ela falou:
"Seus olhos não me enganam, você sabe."
Olhei pro chão por falta de coragem
Nos olhos dela a música acabou
Eu disse: "não foi nada". Ela chorou
Abismo entre palavra e pensamento
Às vezes um segundo é muito tempo nos olhos dela a música acabou
Leoni conseguiu algo realmente notável: materializar uma realidade alternativa e nos dizer "tá tudo bem".



domingo, 27 de dezembro de 2015

Analisando Johnny Hooker - Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito (2015)




Amor. Ódio. Traição. Libido e paixão.  São alguns desses sentimentos que o álbum “Eu Vou Fazer Uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito!” nos apresenta em suas 11 faixas (a última é uma versão em espanhol de ‘Alma Sebosa’).

Johnny Hooker é interprete e letrista desse que é um dos álbuns mais impactantes que tive o prazer de ouvir esse ano, e é impossível não simpatizar e colocar-se como protagonista de alguma das suas canções, repletas de poesia e sensibilidade.

Inicia com a faixa homônima ao álbum, sendo notável já nos primeiros versos a dor de um término de relacionamento desgastante, ‘Talvez algum dia eu te encontre por ai, pra me desenganar, pra me fazer sorrir’. Através da sonoridade pendendo ao brega há o arrependimento desse término, a recaída em “Volta”, submetendo-se até mesmo a perdoar os erros de quem se foi, reprimindo-se mais uma vez.

‘Acha que sua indiferença vai acabar comigo?’. É o questionamento na faixa seguinte, “Alma Sebosa”. Ao perceber que o ser amado não pretende retornar o protagonista está se fortalecendo, constata após a dor que não precisa desse outro pra seguir em frente. “Chega de Lágrimas” é mais agitada, representa a força interior e a vontade ser feliz e seguir, deixar o passado para trás, apesar de ainda sentirmos a angústia nas palavras de ódio do refrão.

O álbum segue com “Amor Marginal”, a faixa mais poética do álbum, poesia essa transportada ao vídeo clipe lançado em setembro desse ano. Aqui transparece a necessidade do amor carnal, do sexo e cumplicidade, lembranças que ficaram presentes na memória do protagonista.

Com o samba de gafieira de “Segunda Chance” Hooker coloca o protagonista na fossa da esperança de um retorno nesse relacionamento já desgastado. Apesar da percepção que sua vida está tomando rumos melhores ainda há esperança numa segunda chance. “Boyzinho” é a transformação, a mudança física, o desprendimento da vida que estava levando à sombra de um relacionamento sem volta.

Johnny Hooker 

“Boato” nos é apresentada através do ritmo descontraído do axé, descortinando toda a transformação do protagonista, quase completa. Está curtindo a vida, percebeu que o ser amado se foi, não há retorno e que o sentimento que permaneceu é simples, verdadeiro e somente isso. Não há mais motivo para sofrer. “Você ainda pensa?” é a última fossa, o desligamento de tudo que passou, os últimos pensamentos já amorosos e sexuais esmorecem nesses versos ‘você ainda pensa em mim quando você fode com ele?’. É hora de seguir, não há mais volta, pois só há o desejo que o outro fique bem (e longe, de preferência), são os desejos dos versos ‘você também vai encontrar um novo amor’.

Hooker finaliza o álbum com o frevo de “Desbunde Geral”. Após toda a dor que passou o ciclo termina, o Carnaval chega e há inúmeras possibilidades de felicidade. Não há tempo há perder com o passado, a esperança em novas possibilidades de felicidade é a mensagem final.

FAIXA INDICADA: “Amor Marginal”

ONDE OUVIR: